O que as crianças admiram e as futilidades da vida adulta

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A coisa que as crianças mais admiram é ver um adulto fazer algo com precisão, acerto e domínio da situação. Enxergam nisso um modelo a seguir, e aprendem sem que ninguém esteja lhes ensinando nada. Eu ficava maravilhado quando meu pai pescava uns peixes e fazia uma fritada para nós ali mesmo na beira do rio. Ou quando meu tio-avô Tozinho, munido de um canivete, improvisava um cachimbo com um galho de árvore. Ou quando via meu tio Naim montar a cavalo. Ou quando meu padrinho Torres, com um serrote e uma lima, me fabricava em cinco minutos uma espingarda de pau. Eu queria ser como eles, e, naquele momento, faria imediatamente o que quer que me mandassem fazer. Aquela era a verdadeira autoridade.

Um pai dar esses exemplos é infinitamente mais útil e benéfico do que brincar com os filhos, fazendo-se ele próprio de criança. Nenhum menino olha um adulto em busca de um modelo de criança.

Do mesmo modo que desde o primeiro dia amei a Igreja, os hinos sacros e o latim da missa que aprendi como coroinha, sempre me senti deslocado na ritualística civil das festinhas de aniversário, das celebrações de casamento e bodas de prata e de ouro, dos bailes de debutantes, da disciplina familiar imposta às crianças, dos tribunais de mocréias que condenavam as moças assanhadas.

Sinto que até hoje não mudei em nada. Vejo meus netinhos espremidos em sapatos novos para brilhar ante as tias e não entendo por que os adultos têm de torrar a paciência infantil com essas futilidades.

Oitenta por cento da disciplina que se impõe às crianças consistem em dar um sentido moral postiço às meras conveniências práticas — ou à preguiça — dos adultos.

Minha sorte na infância foi que eu era um moribundo e ninguém me dava ordem nenhuma.

Quando sarei, começou o tormento. Logo me vestiram um terninho, me botaram uma gravatinha e me mandaram entrar na fila para tirar foto em frente a um treco que diziam ser a bandeira do Brasil. Fiquei aterrorizado. Era a morte.

Moema Viana tem razão: os pobres às vezes ficam livres dos rituais pequeno-burgueses. Não têm ante quem exibir comportamento engomadinho.

Tudo o que não se justifica perante o sentido último da existência é pura frescura.

Fonte: http://diariofilosofico.midiasemmascara.org

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